Proibir é escravidão disfarçada

As bets viraram o novo problema nacional. Pessoas estão perdendo dinheiro e, diante disso, surge a solução mais previsível possível: chamar o Estado.

É curioso. Um adulto entra em uma plataforma, deposita o próprio dinheiro, escolhe apostar, confirma a aposta e, se perder, fica sem o dinheiro. Não houve uma arma apontada para sua cabeça. Não houve alguém invadindo sua conta. Houve uma escolha. Pode ter sido uma péssima escolha, mas continua sendo uma escolha.

E escolhas ruins fazem parte da vida.

O que deveria acontecer quando alguém perde dinheiro apostando? Que arque com a consequência. Talvez aprenda. Talvez pare de apostar. Talvez continue e perca ainda mais. A decisão é dele. O que não deveria acontecer é transformar o erro de um indivíduo em justificativa para dar a uma instituição o poder de decidir o que milhões de adultos podem fazer.

Porque, se esse princípio for levado a sério, a lista de coisas que precisaríamos proibir seria infinita.

Quantas pessoas compram carros que não podem pagar? Quantas fazem financiamentos absurdos? Quantas gastam dinheiro com coisas completamente desnecessárias? Quantas fazem investimentos ruins? Quantas escolhem profissões erradas? Quantas destroem o próprio patrimônio por decisões tomadas por impulso?

Nem por isso colocamos um fiscal ao lado de cada pessoa para autorizar suas escolhas.

Existe uma razão para isso: entendemos, pelo menos em teoria, que adultos são responsáveis pela própria vida.

O curioso é que essa compreensão desaparece quando aparece uma oportunidade de aumentar o poder estatal.

E aqui está a parte mais interessante.

Quando alguém perde dinheiro em uma bet, dizem que precisamos protegê-lo. Mas quando o Estado decide retirar dinheiro dessa mesma pessoa, não existe proteção alguma. Não existe a possibilidade de dizer “não quero pagar”. Não existe escolha. Existe uma cobrança e, se ela não for atendida, existe punição.

A diferença não poderia ser mais clara.

Uma empresa pode tentar convencer alguém a entregar dinheiro.

O Estado pode obrigá-lo.

E ainda assim conseguimos olhar para a primeira situação e enxergar uma ameaça, enquanto tratamos a segunda como algo completamente normal.

Isso fica ainda mais absurdo quando lembramos quem está oferecendo essa suposta proteção.

O Estado brasileiro não é exatamente uma referência mundial em eficiência. Décadas de impostos, burocracia, desperdício e estruturas cada vez maiores não produziram uma máquina pública capaz de resolver satisfatoriamente sequer os problemas mais básicos. Mas existe sempre uma solução pronta quando surge uma nova dificuldade: arrecadar mais e regulamentar mais.

É impressionante a confiança que se deposita em uma instituição que consegue encontrar novas maneiras de cobrar, mas frequentemente encontra dificuldades para entregar aquilo que já prometeu.

E não se trata de defender as bets. Não há nada de especialmente virtuoso em apostar. A matemática da banca está ali, e quem transforma aposta em estratégia de enriquecimento está confundindo entretenimento com investimento.

Mas uma coisa é explicar isso para alguém.

Outra é decidir por ele.

Informação pode ser oferecida. Alertas podem ser feitos. As probabilidades podem ser expostas. Cada indivíduo pode decidir o que fazer depois disso.

O que não precisamos é de uma autoridade dizendo: “Você não tem capacidade para tomar essa decisão, então nós tomaremos por você.”

Esse raciocínio é perigoso justamente porque parece razoável quando aplicado a um caso que provoca indignação. Só que o princípio não termina nas bets. Uma vez aceita a ideia de que o Estado pode proibir uma escolha porque ela é ruim para quem a faz, basta mudar o alvo.

Hoje é a aposta.

Amanhã será outra escolha considerada irresponsável.

E assim, pouco a pouco, a liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma permissão.

Talvez seja esse o ponto que realmente deveria preocupar.

Não se uma pessoa perdeu dinheiro apostando, mas por que chegamos ao ponto de acreditar que a resposta para a irresponsabilidade de alguns deve ser retirar a autonomia de todos.

Cada indivíduo deveria responder pelo que faz com aquilo que possui. É uma consequência simples, mas poderosa: quem ganha assume o ganho; quem perde assume a perda.

Isso é responsabilidade.

Transferir a decisão para uma autoridade e depois obrigar toda a sociedade a seguir aquela decisão é outra coisa.

E talvez a discussão sobre as bets seja apenas mais um exemplo de uma sociedade que se acostumou tanto com a presença do Estado que já não pergunta mais se determinada intervenção é necessária. A pergunta passou a ser apenas qual intervenção deve ser feita.

Talvez devêssemos voltar uma etapa.

Antes de discutir como controlar as bets, precisamos discutir por que alguém deveria ter o poder de controlar uma escolha voluntária entre adultos em primeiro lugar.

Porque, quando a liberdade precisa de autorização, ela já deixou de ser liberdade.