Enéas e o fetiche do estado forte

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Se tem uma coisa que precisa ficar clara é o seguinte: inteligência não é o problema. O Enéas era, sem dúvida, um sujeito extremamente inteligente, preparado, com formação técnica sólida e uma capacidade de raciocínio acima da média da classe política. Isso, por si só, já coloca ele muito acima da maioria dos políticos brasileiros. Mas o ponto central não é esse.

O erro fundamental do Enéas, na visão libertária, está na premissa. Ele parte da ideia de que o Estado pode ser um instrumento legítimo para organizar a sociedade, desenvolver a economia e garantir soberania. E é justamente aí que está o problema.

O Estado não é uma ferramenta neutra. Ele é, por definição, uma instituição baseada em coerção. Tudo que ele faz, faz através da imposição. Impostos não são voluntários. Regulamentações não são opcionais. Decisões políticas não respeitam o indivíduo, mas sim a maioria ou, muitas vezes, interesses específicos travestidos de interesse coletivo.

Quando o Enéas defende um Estado forte para garantir soberania nacional, investir em tecnologia ou proteger a indústria, ele está assumindo que é possível concentrar poder e ainda assim evitar abuso. A história mostra exatamente o contrário. Quanto maior o poder concentrado, maior o risco de corrupção, ineficiência e autoritarismo.

A ideia de “usar o Estado para o bem” é sedutora, mas ignora um ponto essencial: não existe mecanismo confiável que garanta que esse poder será usado da forma como foi inicialmente idealizado. Mesmo que um indivíduo bem-intencionado chegue ao poder, ele não controla quem vem depois, nem como a estrutura será utilizada no futuro.

Outro ponto importante é o nacionalismo. O Enéas colocava muita ênfase na soberania do Brasil enquanto nação. Só que, do ponto de vista libertário, a unidade moral básica não é a nação, é o indivíduo. Não existe “interesse nacional” que justifique violar a liberdade individual. Quando você fala em fortalecer o país através do Estado, inevitavelmente está falando em aumentar o controle sobre as pessoas que vivem nele.

Além disso, políticas de proteção industrial e intervenção econômica partem da ideia de que burocratas conseguem alocar recursos melhor do que o próprio mercado. Isso não se sustenta. Sem preços livres, sem concorrência real e sem responsabilidade direta pelas decisões, o resultado tende a ser desperdício, atraso tecnológico e privilégios para grupos específicos.

O Enéas acertava ao criticar a dependência externa, a fragilidade econômica e a falta de autonomia do Brasil. Mas errava ao propor mais Estado como solução. Na prática, é justamente o excesso de intervenção estatal que cria essas distorções e mantém o país preso em ciclos de baixo crescimento e alta dependência.

No fim das contas, a diferença é de princípio. O Enéas acreditava que um Estado forte poderia construir um país forte. A visão libertária entende que um país só é forte quando os indivíduos são livres para agir, produzir, trocar e se desenvolver sem interferência coercitiva.

Então, o Enéas pode até ter sido um dos políticos mais inteligentes e coerentes do Brasil, mas ainda estava preso à lógica de que alguém precisa mandar, planejar e controlar. E é exatamente essa lógica que impede uma sociedade de alcançar verdadeira liberdade e prosperidade.

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Felipe Viotti Antevere

Sou um observador crítico da política, da economia e das transformações sociais contemporâneas. Escrevo sobre liberdade, responsabilidade individual, imigração, cultura e comportamento humano, sempre com o objetivo de questionar narrativas estabelecidas e provocar o pensamento independente.