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Existe uma coisa que eu acho impressionante no brasileiro: ele desconfia do político, desconfia do vizinho, desconfia do empresário, desconfia do comerciante, mas quando um sujeito aparece dentro de uma televisão, coloca um terno, fala com voz séria e começa a apresentar uma notícia, de repente toda a capacidade crítica desaparece. O sujeito olha para a tela e pensa: “Se está no jornal, então foi investigado. Se o jornalista falou, então é verdade.” E pronto. A televisão virou uma espécie de certificado de autenticidade. Só que existe uma pergunta extremamente inconveniente que quase ninguém faz: quem controla a estrutura dentro da qual essas grandes emissoras existem?
Globo, SBT, Record, Band e outras emissoras de televisão aberta não simplesmente compraram uma frequência como quem compra um terreno e decidiu fazer o que quiser. O espectro de radiodifusão está submetido ao Estado e a exploração de televisão aberta depende de concessões e autorizações públicas. Existem decretos, processos, prazos, renovações e decisões políticas envolvendo aquilo que essas empresas podem explorar. Isso não é uma teoria minha. Está nos próprios documentos oficiais. O governo brasileiro concede, renova e regula essas operações. Portanto, antes de acreditar cegamente que essas empresas são completamente independentes do poder político, talvez seja interessante entender que elas estão inseridas em uma estrutura cujo funcionamento depende justamente desse poder político.
E aqui começa a parte que muita gente não quer ouvir: você realmente acredita que uma empresa que depende do Estado para explorar uma atividade vai tratar o Estado exatamente como trataria qualquer outro assunto? Você realmente acredita que não existe pressão? Que não existe negociação? Que não existe lobby? Que não existe conversa de bastidor? Que não existe político ligando para empresário? Que não existe empresário procurando político? Que não existe gente tentando influenciar pauta? Que não existe medo de perder privilégios? Que não existe preocupação com concessões, contratos, publicidade, regulamentação, relações institucionais e acesso ao poder? Nós não conseguimos provar cada conversa privada que acontece dentro de um gabinete ou entre um político e um executivo de televisão, obviamente não conseguimos. Mas transformar a ausência de uma gravação em prova de que essas coisas jamais acontecem é uma ingenuidade quase infantil.
Aliás, essa é uma das maiores trapaças intelectuais que existem. A pessoa diz: “Mas você não pode provar que determinado político ligou para determinada emissora e pediu para determinada reportagem não ir ao ar.” Claro que não posso provar uma conversa que ninguém tornou pública. Mas então eu faço uma pergunta muito mais simples: por que eu deveria acreditar que um ambiente cheio de dinheiro, poder, concessões, interesses econômicos e relações políticas é habitado por seres humanos absolutamente incorruptíveis, que jamais tentam influenciar uns aos outros? Você acredita nisso em qualquer outro setor da sociedade? Você acredita que empresários nunca fazem lobby? Que políticos nunca pressionam empresas? Que governos nunca usam publicidade como instrumento de influência? Que grupos econômicos nunca tentam agradar quem possui poder regulatório? Se você acredita nisso, não é que você seja otimista. Você simplesmente não entendeu como o poder funciona.
O Estado não precisa aparecer com uma tesoura e cortar uma reportagem para exercer influência. Poder não funciona somente através da censura explícita. Poder também funciona através de incentivos. Funciona através de acesso. Funciona através de dinheiro. Funciona através de relações. Funciona através da possibilidade de favorecer ou dificultar alguma coisa. Funciona através da proximidade entre pessoas que precisam umas das outras. E quando uma empresa sabe que seu negócio está inserido em uma estrutura regulada pelo Estado, seria absolutamente irracional imaginar que ela não considera as consequências de suas relações com aqueles que controlam essa estrutura.
E ainda existe outro componente que torna tudo mais interessante: dinheiro público. Governos gastam dinheiro com publicidade. Ministérios gastam dinheiro com publicidade. Empresas estatais gastam dinheiro com publicidade. Governos estaduais e municipais gastam dinheiro com publicidade. Bancos públicos gastam dinheiro com publicidade. E boa parte dessa publicidade chega justamente aos grandes veículos de comunicação. Então temos uma situação extremamente conveniente: o Estado regula uma atividade, concede autorização para empresas operarem, participa do processo de renovação dessas concessões e, ao mesmo tempo, possui um enorme orçamento publicitário que pode ser direcionado aos veículos de comunicação. Depois querem que eu olhe para essa estrutura e diga: “Não existe absolutamente nenhum incentivo político aqui. Tudo é completamente neutro. Todo mundo trabalha apenas pelo bem da informação.” Desculpa, mas isso é acreditar em Papai Noel.
E não precisa existir um funcionário do governo sentado dentro da redação dizendo exatamente o que o jornalista deve falar. O mecanismo pode ser muito mais sutil. O jornalista sabe quem são as pessoas que possuem poder. O diretor sabe. O dono da empresa sabe. O departamento jurídico sabe. O departamento comercial sabe. O setor institucional sabe. Todos sabem como funciona o ambiente em que estão inseridos. E quando você sabe que determinada pessoa possui poder sobre alguma coisa importante para você, não precisa receber uma ordem explícita para começar a medir suas palavras. Às vezes ninguém precisa dizer nada. Às vezes basta saber quem está do outro lado da mesa.
E é justamente por isso que eu não compro essa conversa infantil de que “se não existe uma ordem escrita, então não existe influência”. Influência raramente funciona assim. O mundo real não é um desenho animado em que o vilão entra na sala e diz: “Censure esta reportagem imediatamente.” Relações de poder são muito mais sofisticadas. Existem telefonemas, encontros, favores, acesso, portas abertas, portas fechadas, interesses comerciais, relações pessoais, lobby, negociações e expectativas. Nem tudo que influencia uma decisão deixa um recibo.
Agora olhe para o jornalismo televisivo e faça uma pergunta ainda mais simples: quantas vezes você vê uma reportagem realmente destruir a estrutura do poder em vez de simplesmente destruir um indivíduo dentro dela? É muito comum assistir a uma matéria mostrando corrupção, escândalo, desvio de dinheiro, abuso de autoridade ou alguma declaração absurda de um político. E isso é apresentado como se fosse uma grande demonstração de independência jornalística. Mas espere. O que aconteceu depois? Você descobriu que determinado político é corrupto. E daí? Troca o político e a estrutura permanece exatamente igual.
É muito fácil colocar um político específico no centro da tela e dizer que ele é corrupto. É muito mais perigoso explicar para milhões de pessoas por que o sistema concentra tanto poder nas mãos de políticos, partidos, burocratas e instituições estatais. É muito fácil mostrar que alguém roubou. É muito mais difícil explicar quais incentivos existem para controlar bilhões de reais pertencentes à população. É muito fácil noticiar que um ministro tomou determinada decisão. É muito mais difícil discutir por que determinadas autoridades possuem tamanho poder sobre a vida de milhões de pessoas. É muito fácil acompanhar uma eleição como se fosse campeonato de futebol. É muito mais difícil ensinar o cidadão a questionar o tamanho do Estado que todos esses candidatos pretendem administrar.
E é aí que eu começo a desconfiar desse jornalismo que se apresenta como grande fiscal do poder. Fiscalizar o episódio é uma coisa. Questionar a estrutura é outra completamente diferente. Você pode passar vinte anos denunciando políticos corruptos sem jamais questionar o mecanismo que continua produzindo novos políticos corruptos. Pode passar vinte anos mostrando escândalos sem nunca perguntar por que existe tanto dinheiro e poder concentrado nas mãos dessas pessoas. Pode passar vinte anos mostrando políticos brigando sem nunca explicar ao cidadão que a briga só existe porque todos eles querem controlar a mesma máquina.
Isso é muito conveniente.
Porque você entrega ao cidadão um escândalo por dia e dá a sensação de que ele está informado. O telespectador assiste à corrupção, fica indignado, xinga o político, compartilha a notícia, discute com o vizinho e no dia seguinte liga a televisão novamente para descobrir qual é o próximo escândalo. E assim ele passa décadas indignado com políticos individuais enquanto continua sem questionar o mecanismo que dá a esses políticos o poder que possuem.
Você não está necessariamente sendo informado sobre o sistema. Você está sendo informado sobre os acontecimentos produzidos pelo sistema.
Existe uma diferença gigantesca.
E antes que alguém venha com a resposta automática de que “a imprensa também critica o governo”, eu sei que critica. Claro que critica. Seria absurdo afirmar que nenhuma grande emissora jamais denunciou governo, político ou autoridade. Mas isso não responde à questão. A questão é outra: até onde você acredita que vai a independência de uma empresa inserida em um sistema econômico e regulatório que possui relações permanentes com o Estado?
O Estado não deveria ser tratado como uma entidade benevolente que concede favores gratuitamente. Toda concessão cria uma relação de poder. Todo dinheiro público saiu do bolso de alguém. Toda regulamentação cria vencedores e perdedores. Toda concentração de poder cria incentivos para que alguém tente controlar esse poder.
E quando você coloca mídia, dinheiro, concessões e política dentro do mesmo ambiente, achar que não existe influência é muito mais absurdo do que admitir que ela provavelmente existe.
Não terceirize sua consciência.