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Todo período eleitoral começa com a mesma encenação. De repente, o político descobre que você existe. Ele aparece sorrindo, aperta sua mão, visita feira, abraça criança, entra em favela, veste camisa de time, fala de liberdade, de justiça, de mudança e, principalmente, de futuro. Durante alguns meses, você deixa de ser apenas contribuinte, eleitor e estatística e passa a ser tratado como a pessoa mais importante do país. Tudo parece maravilhoso. Você recebe promessas de um Brasil melhor, mais seguro, mais rico, mais justo e mais eficiente. Então chega o dia da eleição, você deposita sua esperança em uma urna e volta para casa com a sensação de que participou da transformação do país. E eu quero fazer uma pergunta extremamente simples: você realmente acredita que foi isso que aconteceu?
Porque se o voto fosse realmente essa ferramenta quase mágica de transformação que vendem para você, depois de tantas eleições o Brasil deveria ser um país completamente diferente. Já tivemos presidentes de praticamente todos os espectros políticos, governadores, prefeitos, deputados e senadores de todos os tipos. Já tivemos salvadores da pátria, técnicos, sindicalistas, militares, liberais, conservadores, progressistas, populistas e candidatos que prometeram romper completamente com o sistema. Todos chegaram ao poder prometendo alguma forma de mudança. E, no entanto, a máquina continua crescendo, a burocracia continua existindo, o cidadão continua sendo esmagado por impostos e o Estado continua encontrando novas maneiras de interferir na vida de quem trabalha.
Não estou dizendo que todas as eleições sejam iguais ou que todos os políticos produzam exatamente os mesmos resultados. Isso seria intelectualmente preguiçoso. Algumas decisões políticas têm consequências concretas e diferentes governos podem tomar caminhos diferentes. O problema é muito mais profundo: você foi convencido de que escolher o administrador da máquina significa controlar a máquina. E não significa. Você pode trocar o sujeito que está sentado na cadeira, mas a cadeira continua lá. Os órgãos continuam lá. Os interesses continuam lá. A burocracia continua lá. Os mecanismos de arrecadação continuam lá. Os grupos organizados continuam lá. E, principalmente, continua existindo uma estrutura gigantesca com capacidade de tomar decisões que afetam diretamente a sua vida.
A própria Constituição brasileira afirma que “todo o poder emana do povo” e estabelece que a soberania popular é exercida pelo voto, além de prever o voto obrigatório para a maior parte dos cidadãos adultos. É uma frase bonita. Quase poética. O problema é sair do papel e olhar para a vida real. Porque o cidadão supostamente é o dono do poder, mas passa uma parte enorme da própria vida trabalhando para produzir recursos que serão tributados, regulamentados e administrados por uma estrutura estatal que ele não consegue controlar individualmente. Em 2025, a carga tributária bruta do governo geral foi estimada em 32,40% do PIB. E ainda querem que você olhe para isso e pense que o grande acontecimento político da sua vida é escolher qual político vai administrar a arrecadação.
É aqui que a conversa começa a ficar desagradável.
Porque imposto não é uma doação. Não é uma contribuição voluntária feita porque o cidadão acordou de manhã e decidiu financiar o governo. É uma cobrança respaldada pelo poder coercitivo do Estado. Você pode discutir a legitimidade jurídica e econômica de cada tributo, pode defender a existência de determinados impostos e criticar outros, mas existe um fato básico que não desaparece por causa de um discurso bonito: se você não cumprir suas obrigações tributárias, existem mecanismos legais para cobrar de você. O Estado possui poder que um indivíduo comum não possui. E quanto maior a estrutura estatal, maior é a quantidade de recursos que precisa ser extraída da sociedade para mantê-la funcionando.
Agora observe o absurdo da situação. A máquina pública cresce, precisa de mais dinheiro para funcionar, arrecada mais dinheiro, cria novos programas para justificar a expansão e, quando os resultados não aparecem como prometido, a solução frequentemente apresentada é aumentar novamente a capacidade do Estado. É um círculo extremamente conveniente para quem vive dentro da máquina. O problema gera uma política pública. A política pública cria uma estrutura. A estrutura exige orçamento. O orçamento exige arrecadação. A arrecadação alimenta a estrutura. E então alguém aparece dizendo que, para resolver o problema criado pela estrutura anterior, precisamos de uma estrutura ainda maior.
E você paga.
Você paga quando trabalha. Paga quando consome. Paga quando empreende. Paga quando compra. Paga quando vende. Paga quando importa. Paga quando possui patrimônio. Paga quando transfere patrimônio. Paga direta ou indiretamente por uma infinidade de mecanismos tributários. E depois ainda precisa ouvir que o Estado está fazendo um favor ao devolver uma pequena parte disso através de algum programa ou serviço público. É uma inversão completa da relação entre governante e governado: o dinheiro é retirado da sociedade, passa pela máquina pública, e quando uma parcela retorna para alguma finalidade, o discurso político apresenta aquilo como generosidade.
E então chega a eleição para completar o espetáculo.
O político não aparece dizendo: “Eu vou reduzir drasticamente o poder que meu próprio cargo possui.” Ele aparece prometendo alguma coisa. Mais saúde. Mais segurança. Mais educação. Mais investimento. Mais benefícios. Mais obras. Mais programas. Mais proteção. Mais direitos. E quase nunca existe uma pergunta suficientemente popular para acompanhar cada promessa: “Quanto isso vai custar e quem vai pagar?” Porque promessa eleitoral é barata. A conta da promessa é que é cara.
É muito fácil prometer uma escola. Difícil é explicar quanto custará construir, manter, contratar funcionários, pagar salários, comprar equipamentos, administrar contratos e manter aquilo funcionando durante décadas. É fácil prometer segurança. Difícil é explicar orçamento, efetivo, previdência, estrutura, treinamento, equipamentos e gestão. É fácil prometer benefício. Difícil é explicar de onde virá o dinheiro quando milhões de pessoas também começarem a exigir o mesmo benefício. E é ainda mais fácil dizer que tudo será resolvido aumentando impostos, porque o político não precisa explicar imediatamente quanto daquela conta será retirada do seu próprio bolso.
Por isso a eleição pode se transformar em uma espécie de leilão de dinheiro alheio. O candidato promete distribuir aquilo que não produziu. O eleitor escolhe quem promete entregar mais. E quase ninguém pergunta quem produzirá os recursos necessários para sustentar tudo aquilo. O Estado não produz riqueza simplesmente porque aprovou uma lei. Ele depende de uma sociedade que produza, invista, trabalhe e empreenda. Antes que o governo possa gastar um único real, alguém precisou gerar aquele recurso em algum lugar da economia.
E quanto mais o Estado interfere, mais ele precisa criar regras para controlar as próprias regras. Uma regulamentação exige fiscalização. A fiscalização exige funcionários. Os funcionários exigem orçamento. O orçamento exige arrecadação. A arrecadação exige fiscalização tributária. A fiscalização cria mais obrigações. As obrigações geram mais burocracia. E assim a máquina passa a alimentar a si mesma.
Depois alguém olha para essa monstruosidade e pergunta por que abrir uma empresa é tão complicado.
É complicado porque construímos um sistema que precisa controlar tudo.
Depois pergunta por que determinados serviços são caros.
Porque uma parte enorme da economia está submetida a impostos, regulamentações, restrições e custos que não desaparecerão simplesmente porque um candidato fez um discurso sobre empreendedorismo.
Depois pergunta por que o Estado gasta tanto.
Porque durante décadas transformamos cada problema social em uma justificativa para ampliar a estrutura pública.
E depois, com uma cara completamente séria, alguém aparece durante a campanha dizendo: “Eu vou mudar tudo.”
Mudar tudo como?
Com mais uma lei?
Com mais um ministério?
Com mais um imposto?
Com mais uma agência?
Com mais uma regulamentação?
Com mais um programa?
É justamente aí que a democracia eleitoral mostra uma de suas contradições mais interessantes. Ela permite que você escolha representantes, mas não significa que cada escolha produzirá uma sociedade mais livre, mais eficiente ou mais próspera. Democracia é um método de escolha política; não é uma garantia automática de boas decisões. O simples fato de uma decisão passar pelo processo eleitoral não transforma essa decisão em boa, eficiente ou moralmente correta.
E talvez seja por isso que tanta gente se decepcione depois de cada eleição. A expectativa é gigantesca porque venderam a ideia de que o voto é a chave de tudo. Só esqueceram de contar que uma urna não diminui burocracia, não cria produtividade, não elimina incentivos ruins, não torna uma instituição eficiente e não impede que o poder seja utilizado de maneira diferente daquela que o eleitor imaginava.
Você pode votar em alguém que promete liberdade e descobrir depois que ele acredita em uma definição completamente diferente de liberdade. Pode votar em alguém que promete combater privilégios e descobrir que seus aliados possuem interesses muito específicos. Pode votar em alguém que promete responsabilidade fiscal e descobrir que governar envolve uma pressão permanente por novos gastos. Pode votar em alguém que promete reduzir impostos e descobrir que existem inúmeras estruturas políticas e jurídicas dificultando essa tarefa.
E então começa novamente o ciclo.
“Na próxima eleição a gente resolve.”
Não. Talvez não resolva.
Talvez você esteja esperando da eleição uma coisa que ela nunca foi capaz de entregar: a transformação automática de uma sociedade através da simples substituição de governantes.
O problema não é apenas quem está no poder. O problema é o tamanho do poder que colocamos nas mãos de quem estiver no poder.
Porque se você acredita que encontrou o político perfeito, existe uma pergunta que deveria tirar seu sono: e se o próximo não for perfeito?
Se você defende um Estado gigantesco porque confia nas pessoas que atualmente o administram, está cometendo um erro elementar. Poder não deveria ser limitado apenas porque você confia em quem o possui hoje. Poder deveria ser limitado justamente porque você não sabe quem estará sentado naquela cadeira amanhã.
Essa é a questão que o espetáculo eleitoral raramente coloca na mesa.
Não importa apenas quem você escolhe.
Importa aquilo que essa pessoa terá autorização para fazer depois que você escolher.
E talvez seja exatamente por isso que discutir somente “quem votar” seja uma discussão pequena demais para um problema tão grande. Enquanto você briga com seu vizinho por causa de candidato, partido ou ideologia, a máquina continua funcionando independentemente da amizade ou da inimizade entre vocês. Você pode trocar sua foto de perfil, discutir política até três da manhã e comemorar a vitória do seu candidato como se seu time tivesse conquistado um campeonato. No dia seguinte, entretanto, você continuará acordando para trabalhar dentro da mesma estrutura.
O político vai continuar sendo político. O Estado vai continuar sendo Estado. A conta continuará chegando.
E talvez a pergunta que realmente deveria incomodar não seja “em quem você vai votar?”, mas “quanto poder você está disposto a entregar para qualquer pessoa que vencer?”
Porque, se você só se preocupa com quem estará no comando quando o seu lado estiver vencendo, você não está defendendo liberdade. Você está apenas torcendo para que o poder seja usado contra os outros e não contra você.
E essa talvez seja a maior armadilha de todas.
A eleição termina em um dia. O poder concedido por ela permanece durante anos. O candidato muda. O partido muda. O discurso muda. Mas a máquina permanece. E enquanto a população continuar acreditando que trocar o operador é suficiente para consertar a máquina, continuará comemorando pequenas mudanças enquanto a estrutura que realmente importa permanece crescendo diante dos seus olhos.
No fim, talvez o problema não seja você não votar no político certo.
Talvez o problema seja acreditar que existe um político certo o bastante para receber um cheque em branco.
Porque o verdadeiro poder não está apenas na urna.
Está naquilo que você permite que qualquer vencedor faça depois que a urna é fechada.