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A democracia é tratada como uma espécie de religião moderna. Questionar a democracia parece mais grave do que questionar qualquer governante. Mas a verdade é que a democracia possui um defeito fundamental que seus defensores quase nunca enfrentam: ela parte da ideia de que a maioria tem o direito de decidir sobre a vida dos outros.
Pense no absurdo disso aplicado à sua vida pessoal. Você não abre uma votação para decidir qual roupa vai vestir, qual profissão vai seguir ou o que vai jantar. Ninguém considera razoável reunir cinquenta vizinhos para decidir o que você fará com a sua própria vida. No entanto, quando o assunto é política, de repente essa lógica passa a ser considerada civilizada. O que seria ridículo em qualquer contexto individual se transforma em virtude quando é chamado de democracia.
O problema não está em ser democracia direta, representativa ou qualquer outra variação inventada ao longo dos séculos. O problema está no próprio princípio. A democracia coloca o coletivo acima do indivíduo e transforma direitos em opiniões sujeitas à aprovação popular. Se a maioria decidir restringir uma liberdade, censurar uma ideia ou ampliar o poder do Estado, a única coisa que muda é a quantidade de pessoas apoiando a agressão. O fato de uma violência ser aprovada por milhões não a transforma em algo legítimo.
Os defensores da democracia costumam agir como se a maioria fosse uma entidade sábia, racional e bem informada. Basta observar qualquer eleição para perceber o contrário. Grande parte das pessoas vota por emoção, por propaganda, por tradição familiar ou por simples simpatia. A política se transforma em um concurso de popularidade onde os mais competentes raramente possuem vantagem sobre os mais carismáticos. O resultado é previsível: o sistema recompensa quem sabe conquistar multidões, não quem respeita a liberdade individual.
E então surge a velha desculpa da alternância de poder. Dizem que o problema não é a democracia em si, mas a permanência das mesmas pessoas no comando. Como se trocar governantes resolvesse uma falha que está na própria estrutura. Não importa quantas vezes você substitua os ocupantes do poder se a máquina continua a mesma. Trocar nomes não altera princípios. Apenas cria a ilusão de mudança para que as pessoas continuem acreditando que o próximo salvador fará aquilo que o anterior não fez.
O mais curioso é que muitos dos que se dizem defensores da liberdade continuam defendendo estruturas que permitem a censura, a perseguição política e a restrição de direitos. Sempre existe uma justificativa bonita, uma interpretação conveniente ou uma promessa de que desta vez será diferente. Nunca é diferente. O poder concedido hoje ao seu aliado político estará disponível amanhã para o seu adversário. Essa é uma das regras mais básicas da política, e mesmo assim milhões insistem em ignorá-la.
Nenhum candidato novo vai resolver esse problema. Nenhum partido vai resolver esse problema. E mesmo que algum deles prometesse resolver, por que a sua liberdade deveria depender da autorização de um político? Liberdade não deveria ser uma concessão do Estado. Não deveria depender de eleições, campanhas ou maiorias ocasionais. Um direito que existe apenas quando o governo permite não é um direito; é um privilégio temporário.
No fim, a democracia produz exatamente aquilo que se espera de um sistema baseado na opinião da maioria: decisões influenciadas por ignorância, emoção, propaganda e interesses de grupo. As pessoas são ensinadas a acreditar que votar é participar do poder, quando na prática apenas escolhem qual grupo administrará uma estrutura que continua funcionando da mesma maneira.