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O Brasil transformou a contradição em virtude.
José Luiz Datena aparece filiado ao Partido Socialista Brasileiro e declara à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 35,9 milhões. Apenas esse fato já deveria provocar uma enxurrada de perguntas. Não porque exista algo de errado em ser rico. Não existe. O problema é a gigantesca distância entre o discurso tradicional da esquerda brasileira e a realidade financeira de muitos dos seus representantes.
A riqueza nunca foi o problema. O problema sempre foi a hipocrisia. Um sujeito acumula imóveis, aplicações financeiras, previdência privada multimilionária e décadas de patrimônio construído dentro do próprio sistema capitalista. Depois sobe em um palanque ligado a um partido que carrega a palavra “socialista” no nome e espera que ninguém perceba a contradição.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o capitalismo é tão cruel quanto muitos políticos gostam de afirmar, por que eles próprios não abrem mão dos seus investimentos? Por que não distribuem seus patrimônios? Por que não transformam seus imóveis em habitação popular? Por que não entregam seus milhões para financiar as causas que defendem? A resposta é óbvia. Porque eles sabem exatamente aquilo que evitam admitir publicamente: riqueza é algo bom quando é deles.
O cidadão comum acorda às cinco da manhã, pega ônibus lotado, trabalha o mês inteiro e luta para sobrar algum dinheiro no fim do mês. Enquanto isso, figuras públicas multimilionárias aparecem vendendo discursos sobre justiça social como se fossem representantes naturais da população mais pobre. A distância entre os dois mundos é tão grande que chega a ser ofensiva.
E não se trata apenas de Datena. Ele é apenas mais um exemplo de um fenômeno antigo da política brasileira. Pessoas que enriqueceram dentro do mercado, viveram do mercado, investiram no mercado, protegeram seu patrimônio através do mercado e depois aparecem defendendo mais intervenção estatal sobre a vida de quem ainda está tentando construir a própria riqueza.
O mais impressionante não é a existência dessa contradição. O mais impressionante é a quantidade de eleitores que fingem não enxergá-la. O sujeito possui quase R$ 36 milhões declarados, grande parte aplicada justamente em instrumentos financeiros que dependem da existência de bancos, investimentos, juros, propriedade privada e mercado de capitais para gerar retorno. Ainda assim, há quem o veja como um símbolo de combate às desigualdades produzidas pelo próprio sistema que lhe permitiu acumular esse patrimônio.
Existe uma regra simples para entender a política: ignore o discurso e observe os incentivos. Palavras custam nada. Promessas custam nada. Slogans custam nada. O que importa é a realidade. E a realidade mostra um milionário protegido pelo mesmo sistema econômico que tantos políticos gostam de criticar quando estão diante das câmeras.
Talvez a maior ironia seja justamente essa. O capitalismo produz milionários. O socialismo produz discursos contra milionários. E, no Brasil, frequentemente encontramos milionários fazendo os discursos.