Eufemismo: a Máscara do Poder

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O Estado não governa com força bruta apenas. Ele governa com palavras. Ele pega a violência mais crua e coloca um nome bonito por cima. Assim a maioria das pessoas consegue engolir o que, se fosse dito com honestidade, seria intolerável.

Quando um particular aponta uma arma e exige parte do que você ganhou, todo mundo chama de roubo. Quando o Estado faz exatamente a mesma coisa, ele chama de imposto. A diferença não está na ação. Está só no nome. O fiscal não precisa te ameaçar pessoalmente. Ele manda a lei. A lei manda a polícia. A polícia manda a cadeia. O resultado é o mesmo: você entrega o dinheiro ou perde a liberdade. Só que o Estado conseguiu transformar o roubo em “dever cívico”.

O mesmo truque se repete em tudo. Quando o governo imprime dinheiro sem lastro e o seu salário compra cada vez menos, ele não admite que está roubando o valor do seu trabalho. Ele fala em “política monetária”, “estímulo econômico”, “meta de inflação”. A palavra técnica esconde o fato simples: alguém está diluindo o poder de compra de quem trabalha para financiar quem não trabalha.

Quando o Estado manda jovens morrerem em conflitos que não resolvem nada da vida real das pessoas, não chama de assassinato em massa. Chama de “defesa da pátria”, “missão de paz”, “segurança nacional”. A mãe que perde o filho recebe uma medalha e um discurso. O político que mandou a guerra continua no poder. O eufemismo serve para transformar sangue em heroísmo e responsabilidade em glória.

Quando o governo proíbe você de usar a sua propriedade como quiser, de contratar quem quiser, de vender o que é seu, ele não admite que está agredindo. Ele fala em “regulação”, “proteção ao consumidor”, “interesse público”. A proibição vem disfarçada de cuidado. A coerção vem disfarçada de justiça. E a maioria aceita porque a palavra parece nobre.

Essa troca de nomes não é acidente. É método. O Estado precisa que as pessoas não vejam a violência. Se o fiscal chegasse e dissesse “me dá 30% do que você ganhou ou eu te prendo”, a revolta seria imediata. Então ele inventa a palavra “contribuição”. Se o banco central admitisse “vamos destruir o valor da sua poupança para pagar nossos aliados”, ninguém aceitaria. Então ele fala em “política anticíclica”. A linguagem é a primeira arma.

As escolas reforçam o truque. Desde criança o cidadão aprende que imposto é solidariedade, que inflação é fenômeno técnico, que guerra é defesa, que regulação é proteção. Ninguém ensina a fazer a pergunta básica: se eu fizer a mesma coisa que o Estado faz, eu vou preso. Por que quando ele faz é legítimo? A resposta nunca vem. Só vem mais eufemismo.

O resultado é uma sociedade que discute se o imposto deve ser 27% ou 32%, se a inflação deve ser 4% ou 6%, se a guerra deve ser nesta fronteira ou naquela. Ninguém discute o princípio. Ninguém pergunta se a agressão em si é aceitável. O debate já começa dentro da linguagem que o Estado escolheu. E quem controla a linguagem controla o limite do que pode ser pensado.

Imposto não é contribuição. É roubo. Inflação não é política. É fraude. Guerra não é defesa. É assassinato em escala. Regulação não é proteção. É agressão contra a propriedade e a liberdade de contrato. Quando você para de repetir as palavras do opressor, a realidade fica nua. E a realidade nua é insuportável para quem vive dela.

Não existe contrato social que você assinou. Não existe bem comum que justifique iniciar violência contra quem não agrediu ninguém. Não existe interesse público que transforme roubo em virtude. Existe apenas o uso sistemático da força disfarçado de legalidade. E o disfarce mais eficiente é a palavra.

O primeiro ato de resistência não é pegar em armas. É chamar as coisas pelo nome real. Enquanto a maioria continuar repetindo “imposto”, “regulação”, “política monetária” e “defesa nacional”, o Estado continua intacto. No dia em que essas palavras forem trocadas pelas corretas, (roubo, agressão, fraude e assassinato), a legitimidade começa a rachar. E sem legitimidade, sobra só a força bruta. E força bruta sem disfarce é muito mais difícil de manter.

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Felipe Viotti Antevere

Sou um observador crítico da política, da economia e das transformações sociais contemporâneas. Escrevo sobre liberdade, responsabilidade individual, imigração, cultura e comportamento humano, sempre com o objetivo de questionar narrativas estabelecidas e provocar o pensamento independente.